Jorge Picciani analisa a situação econômica do Rio e fala sobre as eleições 2018 em entrevista ao programa Jogo do Poder

Jorge Picciani analisa a situação econômica do Rio e fala sobre as eleições 2018 em entrevista ao programa Jogo do Poder

Compartilhe isso:

Presidente do PMDB-RJ e da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani concedeu entrevista ao programa Jogo do Poder, da CNT, no último domingo (22/10).   Além de fazer uma análise do quadro político e econômico do estado do Rio e também do país, ele falou sobre a importância do plano de recuperação fiscal para a regularização dos salários do funcionalismo, questionou o modelo de privatização da Cedae e defendeu a remodelação do projeto das UPPS.

O deputado disse ao apresentador Ricardo Bruno e ao jornalista Paulo Cappelli, do jornal O DIA, convidado pelo programa, que apoia uma aliança entre o PMDB e o DEM para as eleições de 2018 ao governo do RJ, tendo o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes como candidato a governador e o também ex-prefeito da cidade Cesar Maia concorrendo ao Senado.

Picianni elogiou a atuação do presidente Michel Temer na condução do país, principalmente no campo econômico, mas acredita que o nome do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB, é o mais preparado para conduzir o país: “Tem experiência acumulada porque governar São Paulo é governar metade do país”.

Segue a íntegra da entrevista

Sobre a crise do Rio de Janeiro, como o senhor analisa as tratativas entre o governo do estado e o governo federal para que resultasse neste empréstimo que ainda não ocorreu? Essa morosidade é normal ou alguém falhou na condução desse processo?

A questão central está na importância de um mecanismo novo que é o da recuperação fiscal. O ganho do estado do Rio vai ser a médio e longo prazos. Temos hoje uma dívida sufocante, maior do que a capacidade do estado de honrá-la, e isso levou a diversos bloqueios, e eles levaram à desorganização das finanças do estado. O ponto positivo é que, apesar da demora, das dificuldades, por se tratar de um modelo novo, de imposições da secretaria do Tesouro Nacional e da AGU, o governador Pezão foi incansável, foi dezenas de vezes a Brasília. Com uma contrapartida das ações da Cedae para o empréstimo, essa demora foi  muito lenta por causa da burocracia.

O Rio discute a privatização da Cedae há muito tempo. Qual é a avaliação do senhor do rumo que deve ser tomado neste momento quanto à empresa?

É uma pena que o governador tenha demorado tanto e hoje esteja praticamente entregando a Cedae. Essa avaliação feita pelo BNDES de que a Cedae vale R$ 5,8 bilhões é um acinte. Quatro usinas da Cemig foram vendidas por R$ 11 bilhões. Eu sempre defendi que nós precisamos ter uma estatal forte na produção de água de qualidade, com preços sob o controle do governo, para universalizar o abastecimento na Baixada Fluminense, onde mais de 2 milhões de pessoas não têm regularidade nos serviços, e fazer a concessão da distribuição.

Hoje, de toda a água que a Cedae produz, ela fatura 60%, enquanto 40% se perde na distribuição. Desses 60%, a inadimplência é de 20% a 35%. Se ela apenas produzisse a água e a vendesse para cinco ou seis grandes concessionárias, receberia 100% de faturamento.

Quando o senhor menciona o governador Pezão, disse que ele tem sido incansável indo a Brasília, mas também criticou a lentidão dele no processo de privatização da Cedae. Como está sua relação com ele hoje?

Minha relação com o governador, do ponto de vista pessoal, sempre esteve nos padrões mais elevados de cordialidade. Não somos amigos, nem temos uma convivência estreita, mas sempre foi respeitosa, de companheiros do mesmo partido. Isso em momento algum deixou de existir. Eu retornei à Assembleia em fevereiro de 2015, e já vinham a crise do petróleo e a crise econômica, e para o governador estava tudo bem. Então, sempre critiquei essa lentidão para tomar medidas.

O senhor chegou a aventar a possibilidade de impeachment do governador Pezão. Essa    é uma alternativa para o estado ou sua opinião mudou?

Nunca achei que o impeachment seria alternativa. Eu achava ruim. Acreditava que o governo deveria se mobilizar para fazer o plano de recuperação fiscal, e isso o governador fez. Eu arquivei oito pedidos de impeachment porque não tinha crime de responsabilidade. A Alerj acabou aprovando na Comissão de Orçamento e depois no Plenário as contas do estado. O parecer do Tribunal de Contas pedia a rejeição porque não estavam sendo cumpridos os itens constitucionais em saúde, meio ambiente, ciência e tecnologia. Mas, como foi um ano atípico,  a Alerj aprovou todo o plano de emergência financeira. Foi superada essa dificuldade.

Mas o governador tem 3% de aprovação e está entre os mais mal avaliados da história, junto com o presidente Temer.  Isso macula a imagem do PMDB e pode impedir a vitória do Eduardo Paes para o governo do Rio de Janeiro?

Evidente que nem a aprovação nacional nem a do governo do estado são uma situação confortável, mas a população sabe avaliar. O Eduardo Paes fez um governo exemplar. Do ponto de vista de gestão, ele fez muitos investimentos e reduziu a dívida da Prefeitura, de forma só comparável ao César Maia. Vamos formar uma grande aliança, e os nossos adversários também estão cheios de pecado. O Índio é secretário do Crivella, que também é um desastre. As pessoas vão ser julgadas por aquilo que fizeram e ninguém nasceu colado em ninguém. Ser do mesmo partido não quer dizer que se vá mal. O PMDB sempre teve um perfil de frente por ser o partido que agregou aqueles que lutaram pelas liberdades democráticas.

O senhor gostaria de trazer o César Maia para a campanha do Eduardo Paes?

 Gostaria muito. Eu já fiz a campanha do César Maia para o Senado na eleição passada. Infelizmente, perdemos, mas fiquei muito feliz com a minha caminhada e a dos meus filhos ao lado do prefeito César Maia. É um homem extramente preparado e seria um orgulho para o carioca e fluminense tê-lo no Senado. Certamente, é o quadro mais preparado do Rio de Janeiro.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, filho do César, garantiu o apoio do DEM nas próximas eleições?

A política é uma grande conversa, e eu e o Rodrigo Maia temos um respeito mútuo um pelo outro e uma relação de confiança nas coisas que tratamos. Estaremos juntos nas próximas eleições. Ele acha que o pai pode ser o melhor candidato para o governo. Já eu acho que o melhor candidato é o Eduardo para o governo e o César para o Senado, até pelo perfil dele. O Eduardo, por ser um pouco mais jovem, talvez tenha mais motivação para a recuperação econômica.

Por que o governo Crivella é um desastre?

Na ordem pública, a cidade está destruída e abandonada. Na conservação, Eduardo entregou a cidade um brinco. Hoje há buracos nas ruas que já dão para festejar aniversário. As coisas ocorrem e é como se a cidade não tivesse prefeito, como nesse caso da queda da orla da Praia da Macumba. Talvez seja pelo nome da praia! Só hoje apareceu lá o novo secretário. Quanto ao funcionalismo, desde os três mandatos do César Maia os servidores sempre foram muito bem tratados e tiveram dia certo para receber. Talvez, nesses últimos 20 anos, este seja o primeiro ano em que não vai haver reajuste.

Ele alega que está tendo dificuldade financeira…

Falta competência. Verifico que ele não tem experiência, não é trabalhador e vive viajando. Aliás, parece uma característica desses últimos prefeitos das grandes capitais. O Dória viaja com um objetivo e ele, sem objetivo. Não tenho acompanhado a gestão financeira da Prefeitura, mas vejo o César Maia dizendo que tem dinheiro. A impressão que tenho é que falta coordenação.

O senhor acredita que o Crivella é um bom ou mau eleitor para o Índio da Costa?

Não converso nem com o Índio, nem com o Crivella, mas sei que o Crivella vai consagrar o Eduardo Paes. O que a gente vê nas ruas é uma saudade imensa do Eduardo Paes. O Crivella será um grande eleitor para o Eduardo.

O senhor também criticou o secretário estadual de Segurança, Roberto Sá, afirmando que ele é um “filósofo”, sem preparo para as ações mais contundentes. O governador está errando em insistir em mantê-lo no cargo?

Primeiro, eu não me envolvo no Executivo. E não acho que o Dr. Roberto Sá não esteja  preparado. O que eu disse é que ele é um filósofo porque imagina resolver essa crise de uma forma que eu não acredito mais. Quando o Roberto Sá formulou o programa das UPPs, tão homenageado, nós tínhamos uma expectativa de que se entrava com a força policial de combate, desarmava os traficantes, e colocávamos uma polícia de proximidade. Essa polícia ia se relacionar com a população e seria de anticonfronto. Ora, na medida em que se perdeu o controle dos morros, e eles estão altamente armados ( fala-se em 15 mil fuzis, é uma coisa inimaginável), como você convive com uma política de proximidade em que é preciso entrar com polícia de confronto?

Chegou o momento de desativar as UPPs e trazer esses homens para os batalhões?

Claro. Só se deve entrar nos morros com ações coordenadas para evitar mortes desnecessárias e balas perdidas, e só se houver afronta à comunidade civil.

Nessa situação, as UPPs não fazem sentido mais?

Tínhamos aprovados na Alerj a contratação por concurso de até 60 mil policiais militares. Hoje estamos com menos de 30 mil. Então perdemos essa capacidade, e precisamos enxergar o seguinte: não dá para fazer uma polícia de proximidade com a população com medo, refém dos traficantes. Por isso, eu disse que o Dr. Roberto é um filósofo. Apoiei as UPPs no primeiro momento, aprovamos todas as mensagens que chegaram do governo, mas chegou a hora de revisar.

As UPPs eram vistas como um gol do governo Cabral, inclusive sendo usadas na campanha eleitoral para eleger o Pezão. Ele e os secretários não souberam manter?

Momentos diferentes requerem decisões diferentes e agilidade nas soluções. O governo Cabral teve aumento de recursos a cada ano, e a Secretaria de Segurança saiu de R$ 3 bilhões e chegou a ter R$ 10 bilhões no orçamento. De repente, houve um enxugamento, e o Estado não teve condições de bancar.  Qual é a solução? Itaguaí tem a mesma população da Rocinha, mas tem 18 policiais por dia em rodízio. Você sabe o tamanho de Itaguaí? O prefeito de Queimados disse nos jornais que o município tem 190 policiais, mas o Batalhão atende a quatro municípios.

O governador Pezão diz que a questão central do déficit do estado é a questão previdenciária. Desse déficit orçamentário de R$ 20 bilhões, R$ 12 bilhões são resultantes das contas previdenciárias. Como resolver isso?

Antes de o governador Pezão falar isso, deveria pensar em 2014, quando mandou para a Assembleia um aumento para 47 categorias de praticamente todo o funcionalismo, com aumento real de 70%. Ele se esqueceu que a Constituição de 88 estabeleceu a isonomia com aposentados e pensionistas. Quem estourou o Rio Previdência foi o Pezão. Até a oposição alertou. Lembro do deputado Luiz Paulo alertando preocupado, com visão de Estado.

Até porque havia uma campanha eleitoral em curso, e o Pezão, que não era conhecido, tentou aumentar a popularidade dele por meio de benesses.

Pode ser, mas a decisão concreta é que ele enviou essas mensagens. Por outro lado, o governo Cabral decidiu fazer concurso para tudo. Querendo ou não, aumentou muito a folha e esqueceram que as pessoas se aposentam. Temos a questão dos militares, que se aposentam com 45 anos. Na Alerj, demos duas contribuições à questão previdenciária. Aprovamos a contribuição dos servidores de 11% a 14% e passamos a contribuição patronal de 20% para 28%, atingindo o orçamento da Alerj, do Ministério Público e do Tribunal de Contas. Não é suficiente, mas é preciso trabalhar melhor a gestão e cuidar daqui para frente. Por que as contas da Alerj estão boas? Chegamos a ter, em função da fusão do estado do Rio com o da Guanabara, três mil funcionários efetivos na Alerj. Hoje temos 600. Os cargos em comissão pagam para o INSS e não sobrecarregam o Rio Previdência.

No cenário nacional, como o senhor está vendo as dificuldades do presidente Michel Temer, agora enfrentando uma nova denúncia?

Essas são complexidades da política brasileira. A situação concreta é que o Brasil está muito difícil desde as eleições de 2014, com o país praticamente dividido ao meio, e Dilma e Aécio são os dois maiores culpados da crise brasileira. A Dilma não compreendeu que, tendo tido uma vitória tão apertada, deveria conciliar mais para alargar sua condição de governança. O Aécio por ter sido um mau democrata e não ter aceito a derrota, ficando espezinhando para caçar a chapa. Não é que eu apoiei o impeachment, mas eu não tinha nenhum compromisso com o PT. Depois de 2014, fui a pedido da presidente conversar com ela e fui franco: “A senhora está como burro em atoleiro. Se não fizer medidas olhando a opinião pública, reduzindo o número de ministérios e reformas na sua base, a senhora vai perder o mandato”. Tentei dar minha contribuição. Cheguei a um ponto que eu vi que era inevitável o impeachment. E me coube colocar o PMDB em uma posição de apoio ao Temer, mas respeitando os companheiros. A minha posição é de líder partidário, e acho que o Temer está indo bem. A economia retoma. Só esse ano foram quase 2 milhões de postos de trabalho recuperados na economia formal e informal. O PIB vai crescer 0,7% esse ano depois de três anos de estagnação.

Mas o senhor não acha complicado um governo com apenas 3% de aprovação?

O Temer não disputou a eleição. Então, ele não tem a legitimidade do voto, mas tem procurado fazer as coisas certas.

Não tendo a legitimidade do voto, o senhor acha que ele poderia fazer reformas tão profundas?

Não se consegue essas reformas nem com 80% de aprovação, como teve o Lula, mas é preciso ter vontade política. Ele avançou na reforma política e no teto de gastos, que são importantes para o país. Por isso que o país está se recuperando. Porém, é um governo com  muitas fragilidades.

Olhando a sucessão presidencial, você acha que o PMDB tem que ter candidato próprio ou caminhar com o PSDB novamente?

No quadro nacional, temos uma grande radicalização na esquerda e na direita, tanto nos costumes, na área do liberalismo e do conservadorismo. Tanto no ponto de vista da família como econômico. Então, você precisa de alguém com muita experiência, sem entrar em aventura. Acho que o único nome hoje na política nacional com essas condições – e eu não tenho nenhuma relação com ele – é o Alckmin. Tem experiência acumulada porque governar São Paulo é governar metade do país.

O Dória seria uma aventura?

O Dória seria uma aventura em qualquer situação. Primeiro porque foi apoiado pelo Alckmin, e parece que está o traindo muito rápido. Segundo,ele  é de uma vaidade e de uma arrogância… Acho que os partidos de centro e o PMDB devem se reunir em torno da candidatura do Alckmin.

O senhor avalia que o governo Temer vai conseguir chegar ao fim do mandato?

Tenho certeza de que o Temer, pela experiência que tem, vai superar mais essa denúncia, que é muito estranha, baseada só em delações. Não se teve tempo de investigá-la. Acho que a Câmara vai rejeitar a denúncia, e ele vai entregar o país em condições muito melhores.

Como está a sua saúde, presidente?

Fiquei sete meses em quimioterapia. Duas cirurgias de câncer, sendo uma muito grave, de nove horas. Estou há menos de um mês de volta à atividade política. Queria agradecer a oportunidade de retornar ao traquejo político novamente.